Tag Archives: rock n’roll

Grandes Homens do Rock: Raul

31 maio

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Tudo Que Não Presta Deixa a Vida Mais Feliz: Uísque e Charuto

9 abr

.. as magníficas ilusões da vida boêmia ..

Os Prazeres Machos da Vida: Mulheres Que Bebem Uísque

8 abr

.. não tem cura o que o uísque não cura, provérbio irlandês ..

Grandes Homens do Rock: 17 Anos Sem Kurt

5 abr

Os Prazeres Machos da Vida: Pagar Morte

5 abr

Tudo Que Não Presta Deixa a Vida Mais Feliz: Kiss

13 mar

.. Knights In Service of Satan? Acho que não heim vovó... ..

Um fantástico quarteto

11 mar

.. imagine 4 heros ..

Brasília Hardcore

18 fev

Brasília é uma cidade estranha. Solidão é a vocação da capital. O DF é amplo, desértico, cheio de espaços vazios. Tudo é longe de tudo. Jovem, a cidade foi formada por gente de outros Brasis, atraídos pelas promessas de viver na ilha da fantasia. Uma espécie de Oeste Selvagem à brasileira, a capital foi entregue a quem se aventurasse pelo cerrado. Foram a juventude da cidade e a solidão que sua forma inspira, junto ao absoluto tédio da vida na capital isolada do país da alegria, o que levou a imagem de Brasília a associar-se tão profundamente com a música estrangeira. Embora os herdeiros dos nordestinos, mineiros e goianos que povoaram a cidade façam das músicas de suas origens as mais populares no DF, o rock ainda é o estilo musical e de comportamento mais intimamente relacionado com a identidade de Brasília. E não é por conta das tradicionais bandas oitentistas da cidade.

Nós, brasilienses, não temos nosso forró ou nossa moda de viola ou o nosso samba. Jovem, Brasília não tem folclore que ensine as crianças os passos básicos de um ritmo popular, ou festa tradicional que leve as pessoas a se reunir anualmente ao som de músicas tradicionais. Os números de fãs depõem em favor dos ritmos populares de outros Estados, mas muitos nativos, aqueles que se perceberam no vácuo cultural do DF, não se reconhecem nas músicas populares do país e nos estilos de vida que as acompanham.

Há em Brasília, e sempre haverá, os jovens que não são malandros, não querem dançar, e não admitem o comportamento típico dos fãs desses estilos. São rebeldes por que são órfãos de tradições, e precisaram criar um espaço para si. Tolos, não entendiam que a não submissão lhes cobraria o preço da rejeição. Sábios, não negam sua inadequação e expressam sua fúria e expulsam seus demônios através da poderosa catarse oferecida pelo Rock N’Roll.

Brasília não é mais a Cidade do Rock, e ninguém se importa. Os “roqueiros” de Brasília não se reconhecem mais como “roqueiros”. Sabem que o termo “Rock” não significa muito esses dias. Hoje o rock, mais comercial no Brasil que nunca, não é mais capaz de oferecer abrigo aos bastardos culturais da capital. Mesmo o Rock os abandonou.

Para entender a estranheza desses meninos e meninas é preciso identificar seus ícones. Na opinião de quem vive a cena underground da capital não é a Legião Urbana a maior expressão da cidade. Renato Russo tinha o DF apenas como cenário de suas histórias, com a louvável exceção de Faroeste Cabloco, relato perspicaz da realidade dos imigrantes na cidade. Não, o retrato da vida nos anéis mais afastados do belo e distante Plano Piloto foi feito pelos Raimundos, para os quais o DF não é cenário, é tema. Brasília é, sim, a cidade do Hardcore e do Trash, os últimos redutos da pureza no Rock N’Roll.

É assustadora a violência a que se submetem estes garotos e garotas nas “rodas” e “slams” e “montinhos”. Entretanto, trata-se de um tipo muito particular de violência consensual, pura expressão da angústia da juventude e da virilidade de homens em formação. Os riffs pesados, o volume e os vocais berrados oferecem um rito de passagem, um ordálio onde se entra por vontade própria. É a busca pela paz através da admissão dos aspectos menos nobres da própria personalidade. É a estranheza de quem enxerga na vida um tipo mais honesto de beleza. É a sabedoria de quem rejeita a falácia da felicidade trivial e, ao contrário, realiza-se com a experiência de emoções mais profundas, embora perturbadoras.  É uma violência admissível por que é um ritual de uma comunidade que oferece um senso de pertencimento tão essencial a alma masculina. É um espaço atraente para mulheres por que aqui se encontram homens, e não “muleques”.

São bons meninos com coração de leão, e são minoria, mas ninguém é mais brasiliense que eles, por que ninguém compreende ou incorpora a estranheza da capital como eles.

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